Na zona sul, próxima a praia, havia um morro, que por estar em área nobre, foi chamado de colina. E este morro era cercado por grades ornamentais de ferro e possuía um portão, também de ferro, que vivia sempre aberto,dando numa estradinha de pedras que corria em espiral morro acima. E o morro era repleto de árvores, jardins expostos e escondidos, umas três ou quatro pracinhas, muitos balanços de corda madeira dependurados em grossos galhos, dois laguinhos, uma ponte em estilo oriental, um coreto e, lá no alto, no fim da estrada em espiral, uma casa simpática, nem grande nem pequena. Ao redor da casa, havia uma cerca baixa, de madeira e um portão, de mesma altura e material, que também ficava sempre aberto. E na casa vivia uma velhinha, sobre quem ninguém conhecia a verdadeira idade ou verdadeiro nome. Ela era apenas a Dona da Colina ou como as crianças a chamavam, a Dona Colina. E que estava lá, no alto, desde as lembranças mais antigas dos mais velhos. Muitos diziam que ela e sua casa chegaram antes da cidade existir, que a cidade cresceu em volta dela. E as pessoas também cresceram ao seu redor. A propriedade da Dona Colina recebia todos que buscavam um lugar pra brincar, passear, ou simplesmente pensar. Todos eram bem vindos ali. E seguiam uma regra, não oficial, de respeitar os limites da cerca de madeira, que demarcava o espaço em volta da casa, privativo à sua moradora. Quando uma bola ou outro brinquedo qualquer, ultrapassava este limite, Dona Colina era chamada pelo dono do objeto para que este, fosse recuperado. Ela dizia alegremente : “Pode pegar, o portão está aberto. Não tem cachorro não”. E ainda puxava assunto para alguma conversa. Dona Colina gostava de conversar. E do lado dentro da cerca, jogava conversa fora com que estivesse do lado de fora. Ela também gostava de passar as tardes dos dias quentes observando, de uma cadeira em sua varanda, as brincadeiras das crianças ou o movimento lento do mar. Tinha uma bela vista do alto do morro. Ninguém nunca soube, ao certo, se algum dia, a Dona Colina, ultrapassou os limites da cerca. Sabiam apenas que, geração após geração, empresários e governantes tentavam adquirir a colina da Dona Colina, sem sucesso. Não importava a quantia oferecida, a propriedade não iria virar condomínio, hotel de luxo, shopping center ou quadra esportiva. Nem estação de metrô, de trem flutuante, de lançamento de foguete ou qualquer outro tipo de estação de transporte. As estações ali eram as da natureza. Os meios de transporte permitidos eram as bicicletas, patins e patinetes sem motor, com motor ou flutuantes. Dona Colina tinha uma única palavra para qualquer proposta a respeito de suas terras : “não”. E assim, Dona Colina viu, de sua varanda, crianças que viraram adultos, que levaram para lá crianças, que viraram adultos, que levaram crianças, que viraram adultos, que levaram crianças… Até que um dia, as folhas das árvores caíram fora de época. Dias depois, as outras plantas murcharam. Em seguida, o lago secou. Uma noite, a casa se desfez como se fosse pó e nenhum vestígio da Dona Colina foi encontrado. Veio uma chuva fina e uma parte do morro deslizou, como barranco de favela em época de temporal. Mais uma chuva fina, e foi outra parte parar lá em baixo. Depois de uns poucos meses, não havia mais colina, nem morro. Apenas um lamaçal cercado de edifícios que alcançavam o céu. E, nesse momento, nenhum empresário quis o terreno valioso. Nenhum governante inventou obra mirabolante. O terreno ficou vazio. O terreno se tornou um vácuo incômodo incrustado na cidade. Uma ferida infértil, onde nem mato ou erva daninha se atreveu a crescer. Uma terra morta.