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I

 

Era onze e meia quando eu acordei. Uma ressaca daquelas e o despertador apunhalando a minha cabeça. Fui me arrastando até o banheiro,tomei dois analgésicos, a seco e fui tomar um banho. Tentar ficar apresentável. Tinha um compromisso por volta das treze e não queria me atrasar. Enquanto abria o chuveiro pensava em como, depois de quase quatro anos frequentando os mesmo lugares ainda não havíamos nos encontrado. A universidade é grande, mas não é o mundo. E o “nos” em questão sou eu e o Marcos. Alguém que surgiu pela internet, vindo de um outro lugar e de uma outra época. Uma época que, ás vezes, duvido que tenha realmente existido. Mas existiu, e eu estava me preparando pra encontrar com a prova viva disso em poucos minutos. A imagem que eu tinha do Marcos era bem próxima a que eu tinha de mim mesma naquela época: CDF sem óculos, cabelo esquisito,corpo franzino. A diferença é que eu era no mínimo cheinha, pra não dizer gorducha e tinha o rosto coberto de espinhas, ao contrário dele , que ainda mantinha a pele de bebê.Tínhamos os mesmos amigos, gente que eu nem sei se está viva ou morta. Gostávamos de escrever e de cinema. Dividíamos as mesmas salas de aula num colégio pequeno e pseudo liberal para os filhos dos pequenos burgueses , pseudo modernos de uma cidade do interior economicamente emergente. Complexo, não? Mas explica muita coisa. Afinal, fugimos os dois daquele mundinho para ganhar a liberdade. Ele veio antes, com papaí , mamãe e irmãozinho. Nem completou o ensino fundamental conosco. Eu fiquei por lá ainda três longos anos . Até que saí da bolha e cá estou. Se pudessem me ver … Se soubessem…

Tive que pegar um ônibus pra chegar ao lugar do tal encontro e , com todo aquele calor e sacolejo , quase me arrependi por ter convencido meus pais a substituirem o carro zerinho e com ar condicionado que me dariam, por ser uma boa menina e passar pra direito, por um quarto e sala num prédio suspeito perto do campus. E me arrependi de fato, por ter concordado com a hora e o local escolhido pelo Marcos. Ao chegar na praia, a preferida do surfistas daqui, me perguntei se o dito cujo era agora um daqueles parafinados de pele castigada pelo sol e bermuda colorida. Se aquela areia e aquele mar eram a sua casa. E eu , ali , como uma vampira , de preto dos pés a cabeça, com óculos escuros enormes , procurando um quiosque com um nome engraçado . Sentei na areia sem saber se o sacrifício valeria a pena . Comprei uma latinha de cerveja de um ambulante e acendi um cigarro. Fiquei observando aquela gente dourada , o colorido brega das barracas e o dia irritantemente belo. Uma mão tocou o meu ombro.

– Ana?

    Era ele.

– Marcos?

    E como eu, havia nele apenas lembranças vagas de sua aparência antiga.

– Você está muito diferente. – ele disse com um leve sorriso.

– Eu retribuo o elogio.

     

Nesse instante nos reconhecemos. Eu dei uma boa olhada nele. Reparei que também não combinava com o cenário tropical em que estávamos: camisa preta com estampa vintage, jeans desbotado , All Stars novíssimos, dois brincos numa orelha só e cabelos ligeiramente despenteados. Também estava de óculos escuros. Ao perceber isso, tirei os meus esperando que ele fizesse o mesmo.

– Por que aqui?- não resisti e perguntei.

– Por que nunca tinha vindo aqui de dia .

– E o que achou ?

– Podia passar sem.

– Vamos sair desse sol ?

– Por favor.

Encontramos um boteco numa rua de pouco movimento. Ocupamos uma mesa mais afastada e entre uma garrafa e outra passamos um resumo de nossas vidinhas. Pra minha surpresa, ele também havia adotado a filosofia do risco calculado . Nada de confusão com a polícia, nada de drogas químicas, nada de sexo sem proteção, nada de bombar na faculdade, nem de arranjar problemas com a família ( afinal, ele pagavam nossas contas) e todo o resto estava permitido. Muito álcool , muto sexo e alguma erva. Essa era a nossa vida . Íamos as aulas o suficiente para não sermos reprovados e mesmo assim tirávamos boas notas. Enganávamos nossos pais inventando estágios imaginários enquanto passávamos boa parte do dia de ressaca. Meu pai achava que eu ganhava meu “dinheirinho” em um escritório especializado em auditoria e o dele , acreditava que o filhinho informata seria o novo Bill Gates. Mal sabia o meu papai , que o meu extra vinha dos trabalhos e monografias que eu vendia para estudantes preguiçosos ou menos favorecidos intelectualmente. Mas, decepção maior seria a do pai do Marcos , se descobrisse que o primogenito trocou a informática por letras e, que o estágio na multinacional era , na verdade, uns trabalhos como web designer free lancer para alguns sites pornô. Mas sejamos racionais: o que ganhávamos com nossas ocupações alternativas chegava a ser quase dez vezes mais do que ganharíamos acordando cedo e batendo ponto. E de algum lugar tinha que vir o dinheiro pras nossas noitadas e não era das mesadas curtas que nos mandavam.

 

Eramos tão parecidos que chegava a assustar. Alguns amores platônicos, nenhum correspondido, alguns casos e muito, muito sexo casual.

Definindo: promíscuos.

 

-Viva a santa camisinha ! – brindou já sob efeito da cerveja.

-Viva a santa camisinha ! – repeti .

 

Estava escurecendo, então , resolvemos pegar o ônibus de volta pro centro.

-Também não tem carro ? – perguntei.

-Tenho, mas quase não uso por causa do sistema .

– Que sistema ?

– Depois que eu quase bati, criei um sistema : só saio de carro quando eu tenho certeza de que não vou beber e, para garantir, que eu não pegue o carro chapado, as chaves ficam numa caixa com cadeado de senha.

– Você tá brincando ?

– Não.

– Sério?

-Sério.

E explodimos em gargalhada. As pessoas na condução sem entender a razão de tanta graça. Nós mesmos eramos a piada e a platéia. No centro, paramos em outro bar e lá encontrei conhecidos que me falaram de uma chopada que ia rolar mais tarde. Garrafas depois, e lá estava eu e meu velho amigo recém reencontrado na nossa primeira balada juntos. Nos perdemos em seguida, entre uma boca e outra.

 

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