E havia um cheiro canelado de incenso no ar. Não havia fumaça, mas havia o cheiro de insenso. E a menina observava o bater de asas de uma transparente libélula. Lavadeira como diziam na roça. A menina ali, sentada na varanda, envolvida pelo ar de mistério, observando o abrir e fechar de asas de uma simples criatura. O sol invernal aquecia sua pernas. O joelho, cicatrizado de alguma aventura recente, apontando para o céu. Havia ali, também, uma teia ligando as vigas do telhado à parede lateral da varanda. A proprietária era sua antiga amiga. Atendia pelo nome que ela mesma, a menina, deu. A libélula foi em direção da teia. Por alguns instantes, a menina temeu pela vida da visitante. A libélula fez um zigue zague mais brusco e prendeu-se na teia. Nesse instante, a menina pediu à amiga tecelã, que poupasse a vida da simples lavadeira. Parece que a aranha entendeu que não se tratava de uma mosca, ou cupim, ou mariposa sem graça. A aranha percebeu, que seria um desperdício transformar tal delicadeza em refeição. A própria aracnídea tratou de soltar dos fios, as asas de celofane. Que saíram elegantemente na direção do firmamento… A menina agradeceu em silêncio a amiga de oito patas. Hoje, a menina que não é mais menina, constantemente põe, em seus escritos, seres com asas. Mas, não se esquece daquela tecelã, que por um bom tempo, residia em sua varanda.

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