Fecha-se uma cortina azul de estrelas. Com meio foco de luz prata. Uma atriz aguarda sua próxima deixa, sua próxima fala deste improviso. Na platéia, uma crítica espera que a ação recomece. Da janela do edíficio, a mulher fuma. Observa a fina camada de garoa que cobre como pó os carros e os paralelepíbedos do estacionamento.
A peça demora a recomeçar. A atriz, ansiosa, tenta prever os próximos atos. A crítica não sente nada. A mulher continua em sua fumaça, enquanto um zelador passa pelo pátio em suas tarefas da madrugada.
A peça não recomeça. A atriz sente que talvez, nunca recomece. Porque talvez, nunca tenha começado. Nunca houve estréia. E sente as emoções do drama tomarem seu corpo. Sente-se personagem de uma farsa barata, de um folhetim. A crítica sem um pingo de surpresa continua sem nada sentir. Ela já conhecia o texto, personagens e atriz. Anota num caderno amarelado: “Como previsto a obra é vazia. Mais uma lacuna, como tantas outras, na biografia da artista”. E continua em sua poltrona assistindo à ausência. E a mulher na janela dá suas últimas baforadas. Sobre ela, o pano escuro e pesado da noite, com seus brilhos distantes e uma lua pela metade. Há um silêncio frio. A mulher da janela sabe que é a atriz e a crítica. A mulher da janela sou eu…

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