– Me empresta o isqueiro?
– Outro ?
– Outro ?
– Cigarro. Você tinha acabado de acender um.
– Caiu numa poça lá atrás.
– Não reparei. Pra onde estamos indo mesmo?
– E faz diferença?
– E não faz?
– Você alguma vez, soube de verdade, para onde estava indo?
– No geral, ou especificamente?
– No geral filosófico.
– Você está muito estranho…
– Não mais do que sempre. Não mais do que todos.
– Já sei. Todo mundo é estranho pra você…
– Todos somos.
– E outros como eu, são confusos também.
– E você acha que as outras pessoas não confusas também?
– Eu devo ser mais que elas. Todos parecem mais decididos do que eu.
– Parecem. Mas a maioria não é. A maioria é tão confusa que nem percebe que não sabe o que está fazendo. E nem o por que. Então você, talvez seja, menos confusa que a maioria…
– Por que eu não faço a menor idéia de nada? Isso me faz menos confusa? Eu não entendo.
– Porque você sabe que não sabe.
– E em que isso vai me ajudar a descobrir pra onde estou indo?
– Não vai te ajudar.
– Grande coisa…
– Se lá no início de tudo. Lá no comecinho, alguém te dissesse que você está rumando em direção à um despenhadeiro. O que você faria?
– Eu parava tudo, na mesma hora.
– E depois?
– Escolheria um outro caminho.
– Qual?
– Eu não sei.
– E por que você não escolhe uma outra direção agora ?
– Eu estou indo rumo à um despenhadeiro?
– Eu não sei. Não há como saber.
– Mas você me perguntou por que eu não paro tudo agora.
– Porque sempre há essa opção.
– Mas pra que mudar se não estou indo pro precipício?
– Você não sabe. Eu não sei… Ninguém sabe mesmo para onde vai.
– E se soubesse?
– E se soubesse, além do destino, de tudo pelo que irá passar?
– É muita coisa pra saber…
– Se o seu destino for o precipício, e se sua vida toda for o caminho que você fará até a beirada. Sua vida toda mesmo. Tudo que você passará de bom e ruim. Todas as coisas que você irá ver. As pessoas que você irá conhecer. Tudo que irá sentir. Se tudo isso depender, exclusivamente, dos seus passos em direção ao barranco… Mesmo assim você pararia de caminhar?
– É muita coisa em jogo…
– É uma vida inteira… Tudo poderia ser diferente. Eu mesmo poderia não estar aqui.
– Estamos caminhando em direção ao precipício?
– Talvez, mas como eu disse, nunca saberemos. O importante é que caminhamos…
– Devolve meu isqueiro. Preciso iluminar o caminho.
– Por que ?
– Não quero perder nenhum detalhe até chegar à algum lugar.
– Já chegamos, talvez…

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