Inspirado em fatos reais e com um boa dose de invenção.

Ele acordou de sobressalto. Olhou no celular ao lado da cama e viu que o relógio marcava 06:59. Acreditou que estava atrasado para o trabalho. Praguejou a empregada que não o  havia chamado no horário. Se perguntou porque ninguém havia ligado.

Em tempo recorde já estava saindo de prédio em direção ao ponto de ônibus. Notou que o tempo estava fresco para o alto verão carioca. Calculou que fosse uma frente fria se aproximando. “Logo hoje ”  disse a si mesmo.  Ele trabalhava na companhia de energia elétrica. E nesse ramo, chuva significava dor de cabeça. Mas, neste momento, ele estava mais interessado no que  os chefes iriam dizer sobre a sua impontualidade.

Ele era bem jovem e estava apenas a duas semanas naquela função. Ainda era período de experiência. Qualquer deslize significaria o retorno ao seu antigo cargo. Tentou entender como poderia ter dormido tanto. Já que, tinha como hábito,  entrar, madrugada a dentro, em casa,  se distraindo na frente do computador  ou em bares, com os amigos  nos fins de semana, sem que nunca deixasse de despertar a tempo de encarar o batente.

Sentiu o cheiro de pão fresquinho  vindo da padaria  próximo ao ponto, lembrou que na pressa não havia comido nada. Antes que pudesse sentir fome, se obrigou à correr para pegar a condução que já estava de saída.

Dentro do coletivo sentiu a mistura dos perfumes, dos grifados, às colônias baratas, recém borrifados, por cada passageiro ao se preparar para mais uma jornada de trabalho ou estudo. Viu adolescentes indo pra escola. Lojas abrindo suas portas. O dia despertando. Mas, nada disso lhe desviou  de sua principal preocupação. Tirou o celular do bolso. Ligou para a chefe na tentativa de se desculpar pela falha. Depois do primeiro sinal de chamada, a ligação foi interrompida.  Após isso, só ouvia a gravação informando que o aparelho estava desligado. Durante todo o percurso do ônibus,  insistia, em vão, em falar com aquela que  havia lhe dado uma chance e lhe ensinado tudo o que sabia sobre sua nova função.  “Ela deve estar furiosa” foi o que lhe veio à mente.

Saltou do ônibus como atleta. Foi em direção à empresa feito maratonista. Tentando minimizar as quase duas horas de trabalho perdidas. Na portaria, passou o crachá  eletrônico, que liberava a entrada,  sem que as recepcionistas tivessem tempo de dizer bom dia. Não suportou esperar o elevador e subiu, até o terceiro andar, de escada. Chegou na porta da sua sala e viu,  que na frente da grande tela de computador, sentado em seu lugar , havia outro. Respirou bem fundo e olhou ao redor. Vários funcionários, cada qual em seu posto. Nenhum rosto conhecido.  Pegou o celular e olhou no relógio. Marcava 07: 45. Respirou fundo mais uma vez. Verificou novamente a hora . “Sete e quarenta e cinco” balbuciou.  Percebeu o equívoco temporal. Ele trabalhava no turno da noite, das 18:00 às 00:00.

Deixou a empresa em silêncio, sem que fosse notado por nenhum colega do turno da manhã. Fez o caminho de volta reparando em cada detalhe que havia lhe escapado no caminho de ida. Em casa, já deitado na cama, tentou se convencer que tudo não passou de um sonho muito estranho…

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