Ultimamente, eu vinha sentindo vergonha de mim. Vergonha de sentir o que senti e por tanto tempo. Logo eu, que anunciava em verso e prosa, ser uma Colombina às avessas, fui cair, sem perceber, no conto de um projeto mal acabado de Arlequim e me tornei um clichê. Eu estava com vergonha de amar quem eu amei. Até que, ainda há pouco, vi postado por um amigo, numa dessas redes sociais, essa frase pronta, que é apenas uma frase pronta, como tantas outras por aí:

“Mecanismo de Projeção: AS PESSOAS PROJETAM NOS OUTROS O QUE ELAS SÃO.”

 

E parei de sentir vergonha. Afinal, se fui capaz de ver, em alguém, que mais tarde, se revelou um arlequinzinho de esquina, o encanto especial de um pierrot iluminado. Se fui capaz de criar a partir de algo tão pequeno e feio, um universo de palavras e  imagens, dotadas de  alguma beleza, é porque eu e não o objeto de inspiração, que carrego um encanto especial. Eu é que carrego a luz dentro de mim. A beleza que eu descrevia, eu é que criei, sem saber que criava.

De repente, me bateu um puta orgulho de mim mesma.

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