Eu devia ter ido embora quando aquela caixa grande chegou e ainda vivíamos naquele primeiro apartamento. Eu lembro muito bem. Quando aquela caixa chegou você não estava em casa e, ao entender do que se tratava, eu chorei. Você não sabe, mas eu chorei e não foi de alegria. Eu chorei prevendo o fim. Eu chorei ao perceber que a pessoa que eu amava era insensível a mim. Era incapaz de compreender, mesmo com tantos sinais óbvios, alguns até mesmo explícitos, o quanto aquela situação me deixava desconfortável. Eu chorei. Você não sabe, mas eu chorei ao perceber que quem eu amava incondicionalmente era incapaz de amar e admirar alguém que não fizesse parte do seu mundinho. Eu chorei por amar alguém que não entendia que o que é bom pra um, nem sempre é bom pro outro. Por amar alguém que não conseguiria amar quem fosse diferente. E eu sou e sempre fui diferente de você. Eu devia ter ido embora naquele dia. Tanta coisa poderia ter sido evitada. Tanto tempo que deixaria de ser desperdiçado. Eu me pergunto o que, além do amor que eu sentia, me manteve junto de você por anos depois que aquela caixa chegou.

Sabe as crises de pânico? O trânsito levava a culpa sozinho, quando sempre houve algo além e, provavelmente, mais forte. Eu sabia o tempo todo o motivo e por isso eu nunca segui o que você me sugeriu várias vezes. Eu não queria ouvir de um estranho, mesmo que fosse no sigilo de um consultório, que os episódios de pânico vinham da certeza que eu nunca seria quem você queria que eu fosse. E, me faria questionar o porquê de eu estar com você. Questionar o motivo de continuar amando alguém que não me amava como eu sou. Iria me fazer pensar se valia a pena eu querer continuar na sua vida. Porque eu estava sempre tentando fazer parte da sua vida. A história foi sempre essa. Não a nossa história e sim a sua história. Porque sempre foi tudo sobre você.

Enfim, eu devia ter ido embora quando aquela caixa grande chegou e eu chorei…

Ao menos, acho que aprendi a lição.