Desejos secretos

Tenho que confessar, que ainda te desejo em silêncio “Bom dia”, “Boa tarde”, “Boa noite”, “Boa viagem”…

Certos hábitos são difíceis de se mudar.

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Ano do karma

A pele escamando depois da febre, me renovando de fora pra dentro. Da janela, observo a noite como gatos nas sacadas. Já é quase madrugada. Conto as estrelas que as luzes da cidade não ofuscaram. Eu não tenho ideia do que virá pela frente. Acho que eu nunca tive. Mas, nada disso importa. A fumaça rouca do cigarro se desfaz no ar. Por um instante eu sou a fumaça. Por um instante eu sou o ar. Estou aqui. Estou em qualquer lugar. Por um instante eu sou a noite. Sou o insone e a insônia. Sou o sonhador e o sonho. Sou as estrelas. Sou eu mesma antes de dormir. E, em algumas horas, serei a alvorada e o despertar.

E o mundo dá mais uma volta em si mesmo…

E eu não tenho ideia do que virá pela frente. Talvez, o pela frente nem exista. Talvez, seja tudo circular…

Eis que chega o fim

Lamento pelo que fomos ou pelo que achei que éramos. Lamento pelas lembranças boas. Lamento por todo resto. Mas, não sei se lamento o fim. Sabe, o medo faz a pessoas acreditarem nas coisas mais absurdas. O medo faz as pessoas agirem das piores formas sem se dar conta. E agora, repensando tudo desde o início, fica uma pontinha de dúvida se tudo não foi criado pelo seu medo de ficar sozinho. Fica uma pontinha de dúvida se a sua paixão por mim teve motivações além do medo de ter que escolher entre continuar num relacionamento ruim, que você mesmo admitiu ter começado porque estava solitário, traído e perdido ou ficar sozinho novamente. Fica uma pontinha de dúvida, sabe? Você se apaixonou por quem eu era ou se eu era a única disponível naquele momento para te livrar daquela situação? Nunca vou saber.

O problema do medo é que a pessoa cria mentiras para escapar do que mais teme e para poder conviver com isso, passa acreditar que elas são verdades. A verdade, a verdade nem sempre é bonita, mas é preciso encará-la de frente. A mais difícil, mas que também pode ser a mais recompensadora é encarar a própria verdade. É se enxergar nas qualidades e defeitos e antes de tudo se amar. O medo da solidão não é o medo de ficar sozinho. O medo da solidão é o medo de lidar com a própria companhia e ser ver como é. Mas, só se conhece de verdade quem aprende a ficar só. Só é possível aprender a se amar quando se tem somente a si para isso. Quem não se ama, não ama mais ninguém. Quem não se ama vai estar sempre procurando preencher um vazio com o outro, sendo que vazios internos, só nós mesmos podemos preencher.

Fico pensando há quanto tempo você vai de relacionamento do tipo tapa buraco à relacionamento do tipo tapa buraco. Há quanto tempo você não sabe como terminar e começar uma relação sem ter omissões, mentiras ou traições envolvidas? Há quanto tempo você não pode, realmente, ter a certeza que aquela pessoa é a pessoa certa? Que o sentimento que sente não tem como pano de fundo o medo de ficar sozinho? Talvez nunca tenha tido isso, a sensação de estar com alguém apenas pelo prazer de estar com alguém. Eu lamento por isso. Lamento mesmo. Eu sempre estive com você pelo prazer de estar com você e pelo amor que eu sentia. E só por isso. O medo de ficar sozinha nunca sequer foi cogitado. Eu gosto da minha companhia. Pessoas que são felizes de verdade gostam da própria companhia. Uma pena que alguém, que apesar de tudo tem tantas qualidades, tenha tanto medo de ficar com si mesmo, de conhecer a si mesmo e de se bastar. Você tiraria o fator medo da equação e entenderia o que é ser completo e livre. Viver com medo é muito ruim, ainda mais um medo tão profundo e complexo. Ter medo de si mesmo é ter que fugir do próprio reflexo e precisar que tenha sempre alguém entre você e o espelho. Eu lamento. Lamento muito.

Seja lá como você estiver, acompanhado ou sozinho, isso não tem mais importância pra mim, no fundo eu sei, que seja lá quem for que estiver com você, é só mais um salva vidas. Como eu fui ( por mais tempo, talvez) e como todas as outras que vieram antes de mim foram. E, talvez, todas as outras que virão. Você até pode não perceber, pode negar, mas seus relacionamentos se resumem a impedir que você fique sozinho e, pode ser, um pouquinho sobre sair da rotina. Mas, é basicamente isso.

Tivemos nossos momentos felizes, tenho que reconhecer. Você acreditava que me amava e eu por te amar, acreditava no seu amor desinteressado. Foi um período de ilusão bem vivida. Agradeço por esse período em que eu era inocente da realidade e era feliz. Vou guardar boas lembranças. E, apesar de você achar que eu sou um monstro maligno, continuo desejando o seu bem. Espero que um dia você possa se conhecer e, principalmente, se amar ainda mais do que eu te amei. Que você consiga preencher os seus próprios vazios e encontrar a felicidade. Sem mentiras e sem medo.

Desculpe-me

se a minha reação não é a esperada. Eu nem sei o que espera de mim. Eu nem sei o que esperar de mim mesma. Eu também não quero te pressionar a nada, mas também não sei o que vem pela frente.

Entenda, eu sou aquela das paixões platônicas, do coração sempre em pedaços, aquela que também já superou perdas importantes. Desculpe-me, mas a vida me calejou há muito tempo e, agora, eu estou onde eu sempre estive antes de te conhecer: no mesmo quarto da adolescência, distraindo minhas dores com ficções bobas, derramando palavras quando a garganta aperta e as lágrimas insistem em brotar. E fingindo que tudo está bem. É tudo tão familiar. Tenho medo de me acostumar novamente com quem eu era e da forma em que eu vivia…

Desculpe-me, eu não quero jogar mais pesos em suas costas, nem mais confusões na sua mente. Você não foi um caso impossível e idealizado, foi uma realidade em que vivi. Também não foi mais um dos musos intangíveis dos meus escritos, foi um amor. É o grande amor. E, eu ainda tô tentando entender como se supera um amor perdido. Paixões, eu já superei. Como disse, estou calejada. Mas amor, você é o primeiro e, talvez, por isso eu esteja tão perdida.

Desculpe-me, se a minha reação não é a esperada. Eu não sei o que espera de mim. Eu não sei o que esperar de mim mesma…

Sabe amor

se eu acreditasse em deuses, você estaria em minhas orações. Porque é tanto querer bem, tanto amor, que ainda transborda do peito, que chega a pedir um gesto, nem que seja simbólico e sem sentido, para se manifestar.

Sabe amor, eu não tenho raiva, nem rancor. Só a dor da ausência. A ausência, ao contrário da saudade, que sabe-se que um dia terá um fim, é um grande ponto de interrogação frio e triste que vai crescendo e ocupando todo o espaço ao redor.

Sabe amor, que ainda é amor. E, que por eu não saber mais o que faço com esse amor que eu escrevo. Às vezes, nem sei direito o que escrevo. Mas, escrevo assim mesmo, pra não deixar o amor minar, mofar por dentro do meu coração e embolorar nas curvas da ausência.

Sabe amor, não sei se você sabe, mas é que te amo tanto que nem sei…

A cada instante

A cada instante mais distante. E a saudade do seu cheiro, da sua voz, seus cabelos entre os meus dedos cada vez maior.

A cada instante mais distante. E me falta coragem pra aceitar a distância. Me falta coragem pra aceitar um possível fim.

A cada instante mais distante. Eu ainda tenho a chave do nosso antigo lar e as malas esperam o meu resgate.

A cada instante mais distante. Até onde essa distância vai nos levar?

Eu não queria te fazer chorar

Nem mesmo queria que minhas palavras te fizessem sofrer. Não sou de escrever agulhas. Muito menos apontaria sílabas afiadas pra quem já me fez tão bem. Quando escrevo que amo, que quero bem, não quero que receba como chumbo que lanço para te oprimir, nem como enchente que derramo para que te afogue. Quando escrevo que te amo, porque te amo, assopro cada letra como pequenas pétalas perfumadas que te envolvam suavemente numa brisa. Quando escrevo que te amo, porque te amo, sussurro cada fonema delicadamente como uma canção de ninar. Por favor, não transforme o meu amor em pesar e perdoe-me, se mesmo sem querer, tirei o sorriso do seu rosto e botei lágrimas nos seus olhos.  Saiba que se eu escrevo que te amo, é porque te amo. E só…

Sol de meio-dia

O gato se derrama pelo chão encerado da varanda
O creme da casa da frente irradia luz como espelho
Uma brisa morna balança um apanhador de sonhos dependurado em frente a rede
As sombras se escondem embaixo da amendoeira,
Embaixo dos pés,
Desaparece nas bases dos postes

Do outro lado da baía,
Numa copa apertada,
Com a temperatura condicionalmente controlada,
Você almoça uma marmita microondamente aquecida
O meio do dia incandesce quando sai pra um cigarro na calçada

Sob as telhas vermelhas da varanda
Ou sob a marquise concretada do edifício
O mesmo astro castiga nossas vistas e aquece nosso corpo
Seja gentil, Sol
Porque de quente, já temos um ao outro…

Encomenda

Eu te envio o meu amor
Como um cobertor que te aqueça
Num ninho seguro

Te envio o meu amor
Como refúgio secreto
Que te dê paz e equilíbrio

Eu te envio o meu amor
Como estrela no céu
Para que encontre a direção

Te envio meu amor
Como grandes asas
Para que esteja em liberdade

Eu te envio meu amor
Como sol de primavera
Para que seus dias sejam sempre agradáveis

Eu te envio o meu amor
Como uma canção ou uma pintura
Para que esteja sempre inspirado

Eu te envio meu amor como elixir
Para que o corpo e a mente
Acompanhe os seus desejos

Te envio meu amor
Como amuleto
Para que a sorte sempre esteja ao seu lado

Eu te envio o meu amor
Como as melhores lembranças
E os mais incríveis planos
E as coisas mais simples e belas do agora
Para que seja feliz

Te envio o meu amor
Como amor
Pois é tanto amor que tenho
E tanto amor que recebi
Que é tudo que tenho para dar…

Missing link

Às vezes, pode ser que pareça que somos estranhos. Acontece. A vida vira e mexe provoca amnésias, aparentes ou não,  temporárias ou permanentes, grandes ou pequenas, profundas ou superficiais.  Então, se por algum instante isso ocorrer: você esquecer que eu sou eu,  eu esquecer que você é você e que somos nós, seria esse o caso de deixar a timidez de lado e nos apresentarmos novamente, sem cerimônia. 

Eu tenho certeza que sempre será um prazer te conhecer…

Randoneiro

No asfalto,
Entre o mar e montanhas,
Você, a bicicleta e o desejo de chegar
Cada vez mais longe
Ir até aonde o corpo aguentar
Cada kilometro,
Cada reta,
Cada subida,
Cada curva,
Cada descida,
Numa prova
Onde todos vencem
A si mesmos
E levam pra vida
A superação

Você pedala,
E em algumas horas,
Irá ultrapassar a linha de chegada
E cada gota de suor,
Cada esforço físico,
Cada esforço mental,
Sempre valerá a pena

Você pedala
E eu aguardo seu retorno
Feliz e orgulhosa
Por você ir até aonde conseguir alcançar

Você pedala
E, com saudade
Na torcida,
Espero você voltar…

A vida que levo

Oh, Colombina que não é Colombina!
Teu Pierrot é mais que qualquer Pierrot já sonhado por ti
Tem estrelas na pele
Música no olhar
E asas nos pés
Que o levam para passeios distantes
Mas que sempre o trazem de volta

Ah, Colombina!
Que a vida é melhor que seus antigos devaneios!
É uma dança a dois e improvisada
Ao som de guitarras e campainhas de bicicletas
Divertida e bela
Uma aventura doce
Entre paredes ou sob o céu
Café e chocolate
Gatos dormindo sobre seus pés
Um cachorro tocando uma canção

Ah, Colombina que não é Colombina!
Seu Pierrot tem o coração gigante
Ainda bem que em seu camafeu cabe o universo
Cabe o coração do Pierrot
As constelações de sua pele
Suas rotas
Suas notas musicais

Ah, Colombina!
Como posso te escrever,
Se o que vivo é tão mais belo
Que qualquer conto de carnaval?

48 horas

Esta deveria ser a medida mínima do dia. Que as 24 normais são tão atribuladas, tão corridas, que precisamos do tempo de um dia, pra cada dia que vivemos. Assim,  mataríamos, não só à noite,  a vontade de estar junto.
Ai, amor, essa coisa que alonga as horas da distância e encurta as horas da presença…
Ai, amor,  esse amor que é tanto que não cabe e transborda pelo tempo…

E pela manhã, vejo você dormindo com a beleza tranquila de todos os sonhos. Uma pena te acordar…

Quando a viagem acaba

O melhor de tudo é quando a viagem acaba. Você volta e nosso apartamento deixa de ter o tamanho de mil estádios vazios no inverno. E o silêncio do deserto mais deserto dá lugar à sua voz.
O melhor de tudo é quando a viagem acaba. Você volta e me conta suas venturas e desventuras. E enche a casa de música. E enche  a casa de sorrisos e luz.
O melhor de tudo é quando a viagem acaba. Você volta e enche nosso lar de vida. Tudo fica repleto de amor…

Sol noturno

Você não imagina, o quanto a felicidade é mais feliz ao seu lado. As longas horas do dia, que o dia a dia nos faz separado, não são duras apesar da demora. Pois, quando a noite cai, a sua presença compensa qualquer espera.

Como uma lua, uma estrela. Chega após o entardecer e sai após a manhã ocupar o céu.

Mas, sua luz e calor são maiores que a do satélite prata, que os astros distantes. Traz uma vida mais reluzente que o globo amarelo que faz o mundo girar…