Bom dia

Que seja um dia bom
Que sua voz não nunca embargue
E que seus olhos não se avermelhem

Bom dia
Que seja um dia bom
A calmaria depois da tempestade
O alívio ao cessar a dor

Bom dia
Que seja um dia bom
Que a esperança ganhe da ansiedade
E que os abraços sufoquem a saudade

Bom dia
Que seja um dia bom
De paz e risos
De cor e luz

Bom dia
Que seja um dia bom
E que de tão bom vire rotina
Transformando um simples desejo
Na mais verdadeira afirmação…

Álbum

Teve uma época que a Colombina ouvia Joy Division, Radiohead. Cantava, em melancólica nostalgia, os versos da Legião Urbana.

Ultimamente, a Colombina anda prestando atenção na trilha aleatória da vida. Os sons incidentais, naturais ou não. A música improvisada do cotidiano. O silêncio…

Às vezes, essa trilha supreende por dizer o que precisamos escutar…

O leopardo lamenta suas feridas, mas não percebe que o ninho de espinhos foi ele mesmo quem criou…

Pobre leopardo engaiolado, seu espaço fica cada vez menor…

O cadeado está aberto, mas insiste em permanecer onde está…

Pobre leopardo acuado… suas cores desbotam a cada dia…

Será que o leopardo ainda se sente livre pra sonhar?

Enquanto isso, a coruja o acompanha de longe…

Sobre laços, jaulas e sacarina

Ofereço laço. Prefere o nó. Ofereço amor. Prefere posse. Olhos que admiram. Escolhe olhos que vigiam. Uso a voz que consola. Prefere os gritos que acusam…

Como animal que se prende às próprias correntes, desfila cativo ao lado de sua dona que o mantém em rédeas curtas e o exibe orgulhosa.

Não adianta oferecer as asas da liberdade para quem faz questão de trancar a própria jaula. Não adianta oferecer o mais pleno dos amores para quem prefere as migalhas racionadas dos desejos mais egoístas.

O adoçante artificial pode parecer mais doce que o verdadeiro. Mas, no fim, sempre deixa um gosto amargo…

Nostalgia

Tem cheiro de insenso indiano
Sabonete de caixinha
E café

Tem gosto de brigadeiro de Ovomaltine
Beijo sem motivo
E café

Tem textura de rede de dormir
Pele com pele
E caneca de café

Nostalgia é café
Carinho e risada
E riso
E sorrisos
Desses que escancaram o rosto
Que escancaram a alma
E fazem a gente se sentir criança novamente

Nostalgia
É uma saudade esquisita
De coisas desimportantes
Que importavam tanto
Em sua despretensiosa desimportância

É um cachorro de pelúcia fazendo um solo de guitarra…

Meia noite e alguma coisa

A Colombina solitária sente a virada da noite pra madrugada, como se ela mesma fosse o tempo. Hoje ela não vê estrelas no céu, mas tem luz nos olhos. O falso silêncio da cidade, repleto de carros distantes, programas de entrevista vizinhos, geladeiras, bombas d’agua, passos na escada do prédio e alguns latidos vigilantes de cachorros em algum lugar entre o aqui e o lá, compõe uma conhecida sinfonia. No fundo, um ruído quase impercetível de cigarras (ou seriam grilos?). O vento roça de leve a pele pra lembrar que, apesar do calor que foi o dia, o inverno se aproxima. Quase todos dormem. A Colombina solitária não vê estrelas. Mas, o que são estrelas pra quem carrega o universo no peito? Quase todos dormem, menos a Colombina solitária que tem luz no olhar…

E um camafeu-coração que cabe o infinito…

(Ainda) Somos tão jovens

Hoje o dia acordou noturno. Céu escuro com o ofuscar barulhento de um ou outro raio. Tenho um desses compromissos inadiáveis da vida adulta. Sento no banco do ônibus com o guarda-chuva fechado pingando ao lado dos meus pés. O rádio do coletivo canta: “a tempestade que chega é da cor dos seus olhos…” Ouço o murmurar tímido de um passageiro ou passageira acompanhando os versos. As janelas, cobertas por gotas em um padrão aleatório, transformam a paisagem numa pintura estilizada. Eu tenho o meu próprio tempo…

Temporal…

Cinza lindo…

O céu amanheceu entre o azul pálido e nuvens encardidas. Algum vizinho ouve alguma música popular que desconheço. O cachorro dorme encolhido no sofá pra espantar o frio. Preciso pegar uma mantinha pra ele. Enquanto o mundo lá fora se agita com possíveis faltas temporárias e divide os próprios sentimentos entre medos e esperanças, eu fumo meu cigarro com uma estranha sensação de calma. É apenas mais uma manhã de sexta-feira. Mais um dia de outono. O vizinho diminui o volume do som. Ouço pássaros cantando. O sol empurra com sua claridade algumas nuvens. Apago o cigarro. Mais uma manhã linda de outono. Aquela sensação de calma continua. A vida continua…

A tarde avança a ponto de se acender a luz da cozinha. Um dia acinzentado, enevoado como alguns ânimos que encontrei pelo caminho. A tela do celular avariada (por dentes caninos) me fez buscar as páginas (em celulose) de um livro de mistério durante os meus trajetos e minhas esperas. Quantos trajetos cabem em algumas horas? Quantas esperas cabem num dia? O céu nublado não me assusta. Meu humor segue inabalável. Sigo esperando por novidades, por dias melhores. Sigo por trajetos e esperas…

Esperança…

Frases aleatórias sobre uma noite que já é madrugada

Boa noite, madrugada!

Os carros dormem no estacionamento

Os gatos sem dono passeiam pelo pátio do condomínio

Algumas estrelas tímidas brilham discretamente no céu horas antes nublado

Por uma ou outra janela com luzes coloridas se percebe televisões insones

Ruídos distantes de algum veículo sonâmbulo

O ronco do cachorro escapa por baixo da porta do quarto ao lado

Na cozinha, apenas o respirar da geladeira e o soprar suave da fumaça do cigarro

Na minha mente, os sons e as cores virando palavras

A brisa entra de mansinho pela área de serviço

A madrugada me desejando boa noite

Será que o escurecer é o sonho da manhã?

Será que a lua e as estrelas são fantasias que a tarde cria enquanto dorme?

A brisa entra novamente pela área de serviço

“Boa noite”

Vou dormir…

Vou acordar…

Desculpe a frieza

Mas, não quero estar por perto quando vier a queda. Nem posso mais me preocupar em como você está. Estou me refazendo, me reconstruindo, não vou poder juntar seus cacos quando você estiver quebrado. O tombo que pressinto é feio e não demorará muito pra ocorrer. A rasteira virá de onde você menos espera e eu não posso mais cuidar de você. Eu tô cuidando de mim, entende? Não posso mais perder minha paz, nem meu sono por você. Eu não posso e nem vou sofrer por tabela pelas escolhas que você fez. A queda virá. Eu até queria estar enganada, mas a queda virá. E eu não tenho mais como tentar te tirar do seus labirintos, pois eu estou saindo dos meus. Eu não posso juntar os seus pedaços, pois a cola que tenho estou usando nos meus. Desculpe a frieza, mas cada um tem suas próprias sementes pra regar. Eu conheço bem as minhas e estou cuidando delas como eu posso. Mas, também conheço as suas. Não quero fazer parte do que você vai colher… Desculpe a frieza. Mas, de coração partido, eu só tô podendo cuidar do meu. Não quero saber quando o seu se estilhaçar…

Eu espero que você fique bem, mas não vou poder te ajudar.

Desejo ao menos, que dessa vez não digam mentiras a seu respeito, como disseram do que veio antes de você. Certas acusações falsas podem virar tragédia dependendo de quem as escuta…

Não leve a mal. De verdade, espero que você fique bem mas, desculpe a frieza, prefiro não estar por perto quando seu sonho acabar.

sobre sexto sentido

A Colombina não gosta de estar sempre com razão. Mas, como maldição, ela enxerga as entrelinhas, tem intuições que dificilmente estão erradas mesmo quando a Colombina gostaria que estivessem. Às vezes, ela até finge que não vê. Mas…

Que fique neste lugar registrado, pra quem sabe um dia ser consultado. O que antes já foi dito, agora aqui é repetido. Estejam todos avisados: que uma hora o chapéu não vai caber, isso se já não estiver cabendo…

Entendedores entenderão… Ou não…

Ou isso é apenas uma micro fábula sem sentido sobre sexto sentido e chapéus…

Ou alguma loucura do chapeleiro louco…

A Colombina não é Alice. Não vive no país das maravilhas…

A Colombina preferia ver, nas entrelinhas, os números da loteria. Pode ser que ela acerte um dia…

De qualquer forma, são apenas palavras…

A bicicleta verde ou o começo do fim

Eu devia ter ido embora quando aquela caixa grande chegou e ainda vivíamos naquele primeiro apartamento. Eu lembro muito bem. Quando aquela caixa chegou você não estava em casa e, ao entender do que se tratava, eu chorei. Você não sabe, mas eu chorei e não foi de alegria. Eu chorei prevendo o fim. Eu chorei ao perceber que a pessoa que eu amava era insensível a mim. Era incapaz de compreender, mesmo com tantos sinais óbvios, alguns até mesmo explícitos, o quanto aquela situação me deixava desconfortável. Eu chorei. Você não sabe, mas eu chorei ao perceber que quem eu amava incondicionalmente era incapaz de amar e admirar alguém que não fizesse parte do seu mundinho. Eu chorei por amar alguém que não entendia que o que é bom pra um, nem sempre é bom pro outro. Por amar alguém que não conseguiria amar quem fosse diferente. E eu sou e sempre fui diferente de você. Eu devia ter ido embora naquele dia. Tanta coisa poderia ter sido evitada. Tanto tempo que deixaria de ser desperdiçado. Eu me pergunto o que, além do amor que eu sentia, me manteve junto de você por anos depois que aquela caixa chegou.

Sabe as crises de pânico? O trânsito levava a culpa sozinho, quando sempre houve algo além e, provavelmente, mais forte. Eu sabia o tempo todo o motivo e por isso eu nunca segui o que você me sugeriu várias vezes. Eu não queria ouvir de um estranho, mesmo que fosse no sigilo de um consultório, que os episódios de pânico vinham da certeza que eu nunca seria quem você queria que eu fosse. E, me faria questionar o porquê de eu estar com você. Questionar o motivo de continuar amando alguém que não me amava como eu sou. Iria me fazer pensar se valia a pena eu querer continuar na sua vida. Porque eu estava sempre tentando fazer parte da sua vida. A história foi sempre essa. Não a nossa história e sim a sua história. Porque sempre foi tudo sobre você.

Enfim, eu devia ter ido embora quando aquela caixa grande chegou e eu chorei…

Ao menos, acho que aprendi a lição.

Aos poucos vou fazendo as pazes com o meu lugar. Por mais que eu me adapte as rotinas e obrigações diurnas, eu sou lua, talvez até mesmo uma estrela distante e desconhecida. De qualquer forma, eu sou da penumbra da noite ou do silêncio da madrugada. É quando tudo fica mais claro. Quando o pensamento flui e a inspiração me rodeia. Eu posso até me adaptar ao sol. E, reconheço que as cores e luzes do dia tem os seus encantos. Mas, a noite, a madrugada, ambas são o meu lar. Enquanto todos dormem, eu crio…

Azul de Abril

O cachorro acorda a Colombina com suas patinhas e latidos. Se pudesse falar, diria: “Desperta, Colombina! Acho que o céu está bonito. Descreve o azul pra mim?”

E a Colombina olha pro céu limpo de início de outono e diz: “Hoje o azul está mágico. De um tom que cantarola a esperança de novos tempos. Um azul que vibra dias melhores”.

O cachorro olha a Colombina com seus olhos de buldogue como se dissesse: “Sempre é um novo dia e cada dia pode ser melhor…”

Ele pega seu brinquedo de borracha e vai deitar no sofá da sala. Em questão de segundos está roncando os seus sonhos de cachorro.

A quase máquina do tempo

E a Colombina parece que voltou ao passado sem voltar. Na casa de sua mãe, agora sem sua mãe. As roupas, mesmo que guardadas em malas na falta ainda de um armário, já não significam temporariedade. Sua sobrinha, que antes era recém adolescente, agora é quase adulta. Pelo apartamento, os passinhos de um cachorro amigável que antes não havia. Os kilos perdidos nos últimos meses, as peças antigas que voltaram a caber, o retorno à escrita, antes deixada de lado, tudo dá a impressão que a Colombina voltou no tempo sem voltar. É igual, mas é diferente. A Colombina, de novo solitária, vai retomando a sua vida. Aos poucos, a Colombina vai se reencontrando com si mesma. E ela gosta do que vê…

Meu outro nome

Quase ao fim de um domingo cinza e preguiçoso, desses que a cortina transforma o dia em noite e a cama em ninho, depois de algumas sessões de ficção enlatada, a Colombina com coração de Pierrot, novamente solitária, pensa no que é. Na essência que carrega por dentro. Ela sente uma chama, uma força suave, uma faísca. Seu camafeu coração ainda está avariado, é verdade. Mas, mesmo assim, é o coração camafeu da Colombina. Nele cabe um universo inteiro e algumas dimensões. A Colombina está novamente solitária. E ainda que tenha algumas lágrimas escondidas pra derramar, mesmo que por muito tempo não se chamasse mais assim, ainda é e, talvez, nunca deixe de ser a Colombina.

E ela escreve a própria história…

13

A madrugada surge com um sono leve. Sexta-feira. Não me assustam as superstições. Nem esse semi silêncio preenchido pelo motor da geladeira ou pela TV de algum vizinho. Nem a escuridão da noite. Tenho mais medo desse meu coração teimoso que cisma em lembrar e da minha mente que se deixa levar pelo que ainda ocupa o meu peito. Escadas e gatos pretos são convites pra mim. O que me apavora é o que ainda sinto…

Não sei se foram as poucas horas de sono da última noite, se foi a frustração de mais uma entrevista que não deu em nada, se foi só cansaço. Mas, ao ouvir um gato miando alto no pátio do condomínio, senti o peito apertar e algumas lágrimas silenciosas rolarem… Um cigarro, um copo de coca cola e me convenço que é só tudo isso que escrevi. Não cogito o que não quero pensar a respeito. Amanhã será um novo dia de céu azul. Ou cinza. Não importa. Amanhã será um novo dia…

Da ponte vejo a baía. Gaivotas e mais gaivotas rodeando algum cardume. O trânsito flui enquanto a passageira ao meu lado lê algum romance bobo. Outros com os olhos vidrados nos celulares. Outros com olhos fechados. Alguns com os olhos sonolentos. Alguns apenas olham. Um céu de outono azul vívido coroa a paisagem. Mais um dia que começa. Vida que segue pra quem percebe e pra quem não percebe…

A vida…

Fiz a besteira de procurar saber de você. O que vi foi uma foto. Você bêbado, latinha na mão, cigarro na boca e um olhar perdido…

Onde está a felicidade que você foi procurar? Só quem não te conhece pra não perceber o quanto a alegria que estampa é artificial…

Onde está a felicidade que você foi procurar?

Não está nos seus olhos…

Tão perdidos…

Um dia acinzentado

Um gosto ruim na boca. Vou tentando me reconstruir. Mas, é como se a cada dia uma parte de mim morresse um pouco, pra renascer e morrer de novo. Seria mais fácil se ainda não houvesse amor. Seria mais fácil se eu conseguisse te odiar. Pois o ódio, ao contrário da mágoa, queima rápido. Vira cinzas. E das cinzas, como fênix eu renasceria. Mas não. É como o dia de hoje, nublado. Talvez, caia uma chuva fina, mas o céu continuará pesado e o ar abafado. Seria mais fácil se eu te odiasse e esse ódio se derramasse como tempestade, e olha que tem horas que você parece se esforçar pra isso. Mas, ainda não te odeio. Mesmo quando passo o dia deliberadamente tentando te odiar, vem a noite e os sonhos vêm pra me lembrar que no fundo eu ainda te amo. Sonhos bobos. Vou tratar de esquecê-los assim que eu acordar. Vou transformá-los em cinzas da memória pra poder criar novas lembranças. Vou esperar pelas tempestades. Vou renascer, se não for das cinzas, da lama como lotus. Vou reaprender a ser eu sem você. Vou regurgitar o amargo, pra poder novamente sentir algum sabor. Vou ser eu sem você. Vou ser apenas eu…